Há exatamente um ano atrás eu
tive a oportunidade de quase morrer.
Digo oportunidade porque a morte
está de certa forma muito fora das nossas preocupações diárias e quando de
repente ela se apresenta assim tão próxima, é realmente um momento especial.
Então depois do susto e depois de
três dias de UTI, eu não morri.
E eu me perguntei por um longo tempo:
Porque não morri?
Porque não era a minha hora? OK,
aceito essa resposta. Mas se não era a minha hora precisava todo esse escarcéu?
Não podia só pegar uma gripe forte? Tinha que ser um evento com direito a
passear de ambulância pela cidade, centro cirúrgico, transfusão e recuperação
dolorida?
Tinha sim. Tinha que acordar meu
instinto de sobrevivência. Como quem aprende a nadar caindo na água Eu tinha
que lutar e querer continuar viva, para ouvir minha voz da consciência me
perguntar:
__Quer continuar viva? Então não
reclama mais da vida que tu tens. E se não estiveres satisfeita muda tudo pelas
tuas próprias mãos ou pede para sair.
A vida me deu uma rasteira, mas
me estendeu a mão.
Nesse ano que passou muitas
coisas mudaram. Mudanças sutis,
imperceptíveis até e mudanças radicais. Algumas postas em práticas outras em
stand by ainda. Posso dizer que foi um ano sabático, de muito autoconhecimento,
análise, entendimento, desprendimento e decisões.
Quem me conhece sabe o quando eu
gosto da vida. Acordo cantando e durmo sorrindo, mas isso não é o suficiente
para garantir um lugar marcado. Não basta querer viver, gostar de viver, tem
que merecer a vida. A vida é algo mágico de difícil descrição. Mas apaga-se facilmente
como uma vela, antes mesmo de queimar até o final.
E eu cheguei à conclusão que a
vida me deu tantas coisas lindas dignas de agradecimentos diários, mas que eu
também desperdicei muita vida... Joguei fora muito tempo, desisti de muitas coisas, não aproveitei muitas oportunidades. Permiti que outras pessoas vivessem
minha vida por mim. Sinto como se eu
tivesse ganhado uma mala cheia de dinheiro, dinheiro que no meu entendimento não
acabaria nunca mais. Então passei a vida toda jogando ele fora, gastando,
emprestando, desperdiçando. E enfim um dia ele acabou e eu não tinha mais nada
e também não tinha construído quase nada e o pouco que construí não me trazia
contentamento. Alguém lá em cima resolveu me dar um puxão de orelha.
No dia do incidente lembro bem do
socorrista da SAMU falando para seus colegas:
__Vamos transferi-la se não ela
vai entrar em óbito.
E eu pensava. Como assim entrar
em óbito? Eu tenho roupa na maquina, não posso entrar em óbito.
Pois é, tenho muita coisa para
fazer, muitos sonhos para realizar, muita felicidade para viver, muita gente
para amar. Definitivamente não posso “entrar em óbito”. E se isso não aconteceu
é a hora de colocar em pratica tudo o que gostaria de fazer se estivesse viva.
Ops! Eu estou viva. Então não
tenho mais desculpas para não ser feliz. Nem eu nem você.
Não espere os 45 do segundo tempo
para fazer o gol do titulo, você pode acabar sendo surpreendido por um relógio desregulado
que vai apitar antes do final da partida. E aí, não tem mais volta.
A vida é uma viagem fantástica. A
morte é um desvio sem volta, um atalho fora do roteiro, um adendo acrescentado
ao contrato original sem direito a recurso.
E eu que vivia presa numa gaiola
dourada agora tenho asas. E sempre tive só não sabia usar. Assas de liberdade
que não me levarão para o céu, mas me levarão para a vida. A vida que me espera
lá fora. Alias a minha próxima tatuagem tem esse tema. Asas de liberdade. Já
está escolhido o desenho e o local, em breve mostrarei para vocês.
Tenho duas
tatuagens que foram feitas em momentos muito expressivos da minha vida. Agora tenho
também uma cicatriz que não vai me deixar esquecer do dia que quase morri. E em
breve mais uma tatuagem que vai marcar um momento de libertação.
Me liberto da vida que vivia
antes. Agradeço pela vida que ainda tenho. E me alegro com o fato de estar
viva.
Não espere até a morte bater na
sua porta para gritar pela vida.
Seja feliz agora. Hoje. E amanhã também!
E ame, ame muito, ame a todos e principalmente a você mesmo!
* Aos meu filhos. Por me fazerem ter medo de morrer antes de vê-los crescer.

maravilhoso.... faz pensar.... e pensar.... este ano muitas coisas que aconteceram me fizeram pensar muito sobre este tema... pessoas próximas de mim que gostariam de aproveitar a vida e não podem.... pessoas que já se foram.... enfim Valdriana, lindo registro, obrigada....bj
ResponderExcluirFiquei emocionado ao ler este texto, é muito emotivo verdadeiro e acima de tudo um apelo à vida.
ResponderExcluirGostei muito