quarta-feira, 31 de outubro de 2012

INTIMIDADE LIMITADAMENTE COMPARTILHADA



Gostar de escrever, antes de qualquer coisa, é gostar de escutar. Escutar as pessoas, os amigos, a alma, o coração. Escutar antes de qualquer coisa, é saber ler. Ler nas entrelinhas, nos entredentes, nos recados subentendidos. Primeiro ouvir, depois ler e por fim escrever.

Pois estava eu na fila do supermercado, e duas amigas se reencontraram aparentemente após algum tempo sem se verem. Eram duas senhoras já com os seus “enta” bem adiantados.
Depois de beijinhos e abraços de praxe, venho o assunto:
_E tu? Esta sozinha?
_Não, sozinha não. Estou ficando.
_Eu casei novamente faz dois anos, mas já estou pensando em separar.
_Eu não me caso nunca mais. Agora é cada um na sua casa. Nada de juntar escovas de dente e ter que dividir meu banheiro. O bom é assim: vai lá  “pá pum”... E cada um dorme na sua cama.

Fiquei passada! Pá, Pum!? Como assim? Que modernismo é essa minha senhora?

Mas o fragmento da conversa que mais me impressionou foi o fato dela dizer que não queria mais dividir o seu banheiro com ninguém. Dividir o banheiro com alguém é o momento máximo da intimidade. É um atestado de completo envolvimento.

Então queremos amar, sermos felizes, nos sentirmos completas, mas não queremos dividir o banheiro? E que relação seria essa que se entrega em partes? Divido contigo a conta do jantar, divido contigo a minha cama, mas não divido contigo o meu banheiro.

É no banheiro que nos despimos das mascaras. É no banheiro que choramos escondido. É no banheiro que somos quem somos, é lá que tiramos a maquiagem, desfazemos o penteado. Só nos conhece bem aquele que já compartilhou de toda a nossa intimidade. E essa ideia de compartilhar nossa intimidade anda assustando e muito as relações  sentimentais atualmente.

Saí do supermercado pensando se necessariamente ao me envolver com alguém eu precisaria dividir meu banheiro com essa pessoa. Conclui que não.

Os homens no geral tem uma tendência a bagunçar o banheiro da gente. Deixam tudo fora do lugar, alagam o chão, emporcalham a pia, demarcam território, invadem o espaço literalmente.

Enfim por mais estranho que pareça eu quero dividir a minha vida sim com alguém, mas, por favor, não entre no meu banheiro. Porque é preciso em alguns momentos ter um lugar só seu, onde se possa ler o jornal, borrar a maquiagem, chorar sem ser incomodada. Não há nada pior do que ser surpreendida por alguém entrando porta adentro no seu banheiro sem pedir licença, e realmente isso eu não quero mais.

A senhora moderna da fila do supermercado com sua idade já bem avançada acabou me ensinando algo que a vida já vinha me mostrando há muito tempo e o meu romantismo não me deixava entender.

Liberdade não tem preço. Privacidade numa relação também pode e deve existir.  E só amor não basta. É preciso muito mais do que amor para querer dividir um banheiro!!!! 

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