Gostar de escrever, antes de
qualquer coisa, é gostar de escutar. Escutar as pessoas, os amigos, a alma, o
coração. Escutar antes de qualquer coisa, é saber ler. Ler nas entrelinhas, nos
entredentes, nos recados subentendidos. Primeiro ouvir, depois ler e por fim
escrever.
Pois estava eu na fila do
supermercado, e duas amigas se reencontraram aparentemente após algum tempo sem
se verem. Eram duas senhoras já com os seus “enta” bem adiantados.
Depois de beijinhos e abraços de
praxe, venho o assunto:
_E tu? Esta sozinha?
_Não, sozinha não. Estou ficando.
_Eu casei novamente faz dois
anos, mas já estou pensando em separar.
_Eu não me caso nunca mais. Agora
é cada um na sua casa. Nada de juntar escovas de dente e ter que dividir meu
banheiro. O bom é assim: vai lá “pá pum”...
E cada um dorme na sua cama.
Fiquei passada! Pá, Pum!? Como
assim? Que modernismo é essa minha senhora?
Mas o fragmento da conversa que
mais me impressionou foi o fato dela dizer que não queria mais dividir o seu banheiro com ninguém. Dividir o banheiro com alguém é o
momento máximo da intimidade. É um atestado de completo envolvimento.
Então queremos amar, sermos
felizes, nos sentirmos completas, mas não queremos dividir o banheiro? E que
relação seria essa que se entrega em partes? Divido contigo a conta do jantar,
divido contigo a minha cama, mas não divido contigo o meu banheiro.
É no banheiro que nos despimos
das mascaras. É no banheiro que choramos escondido. É no banheiro que somos
quem somos, é lá que tiramos a maquiagem, desfazemos o penteado. Só nos conhece
bem aquele que já compartilhou de toda a nossa intimidade. E essa ideia de
compartilhar nossa intimidade anda assustando e muito as relações sentimentais atualmente.
Saí do supermercado pensando se necessariamente
ao me envolver com alguém eu precisaria dividir meu banheiro com essa pessoa. Conclui
que não.
Os homens no geral tem uma
tendência a bagunçar o banheiro da gente. Deixam tudo fora do lugar, alagam o
chão, emporcalham a pia, demarcam território, invadem o espaço literalmente.
Enfim por mais estranho que
pareça eu quero dividir a minha vida sim com alguém, mas, por favor, não entre
no meu banheiro. Porque é preciso em alguns momentos ter um lugar só seu, onde
se possa ler o jornal, borrar a maquiagem, chorar sem ser incomodada. Não há
nada pior do que ser surpreendida por alguém entrando porta adentro no seu
banheiro sem pedir licença, e realmente isso eu não quero mais.
A senhora moderna da fila do supermercado
com sua idade já bem avançada acabou me ensinando algo que a vida já vinha me
mostrando há muito tempo e o meu romantismo não me deixava entender.
Liberdade não tem preço.
Privacidade numa relação também pode e deve existir. E só amor não basta. É preciso muito mais do que
amor para querer dividir um banheiro!!!!



